Associação do uso de telefones celulares e tumores cerebrais

A hipótese de que o uso de telefones celulares induz tumor cerebral tem sido motivo de muita controvérsia ao longo das décadas e, mesmo nos dias atuais, motivo de grande debate na comunidade científica.

Um recente estudo australiano – junho de 2016-  não encontrou associação entre uso de telefone celular e tumores do sistema nervoso central. Neste estudo, os pesquisadores examinaram as taxas de incidência específicas por idade e sexo em 19.858 homens e 14.222 mulheres diagnosticados com tumor cerebral na Austrália entre 1982 e 2012 (1). Os achados mostram que a incidência de câncer cerebral não aumentou durante o período do estudo em nenhum grupo exceto entre os pacientes entre 70 e 84 anos de idade. No entanto, neste grupo, a incidência de câncer cerebral começa a aumentar em 1982, antes da introdução dos telefones celulares. Paradoxalmente, ao longo das últimas duas décadas, o uso de telefones celulares aumentou dramaticamente, de cerca de 9% em 1993 para cerca de 90% atualmente entre os australianos. No entanto, as taxas de incidência ajustada para idade para tumores cerebrais em indivíduos entre 20 e 84 anos de idade aumentaram apenas discretamente em homens ao longo dos últimos 30 anos, e permaneceram estáveis em mulheres. Assim, como conclusão do estudo, não haveria relação na incidência de tumores cerebrais e o grande aumento no uso de telefones celulares.

Como bem evidenciado, os tumores cerebrais malignos são mais prevalentes na população acima dos 50 anos. Assim, um estudo japonês(2) tentou averiguar a maior exposição dos jovens aos telefones celulares e sua associação com maior incidência de tumores cerebrais. Resultado: não foi encontrada nenhuma associação entre o uso de telefones e aumento nos casos de câncer cerebral nesta população.

O fato da radiação dos telefones celulares ser não ionizante seria o principal argumento utilizado daqueles que consideram muito improvável que ela cause câncer (3). Outro argumento levantado é de que a incidência de câncer cerebral também é mais alta em homens do que em mulheres e diferenças entre os sexos também foram observadas em outros tipos de tumores. Mas não há evidência de que os homens usem telefones mais frequentemente ou por períodos maiores que as mulheres.

Associação entre os tumores benignos, tais como meningiomas, adenomas de hipófise e schwanomas, também foram estudadas e não apresentaram consistência na literatura (4).

Por outro lado, quem defende a associação do uso de telefones celulares e tumor cerebral justifica que a análise deve ser pormenorizada. Dados precisos sobre a posição do tumor são essenciais, devido à absorção altamente localizada de energia no cérebro humano dos campos de radiofreqüência emitidos pelo aparelho. O estudo INTERPHONE (5) publicado em dezembro de 2016 envolveu pesquisadores de 14 diferentes países (Austrália, Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Israel, Itália, Japão, Nova Zelândia, Noruega, Suécia e Estados Unidos, Reino Unido) e analisou 792 usuários regulares de telefones celulares diagnosticados com um glioma (tumor cerebral primário mais comum) entre 2000 e 2004. Como resultado foi encontrado uma associação estatisticamente significativa entre a distribuição intracraniana de gliomas e o lado geralmente utilizado do telefone. Tal associação era independente do tempo de chamada acumulada.

Consoante a esse achado um estudo inglês (6) verificou relação entre o uso de telefones móveis e tumores malignos no lobo temporal do cérebro (próximo a orelha) e um estudo francês (CERENAT) (4) considera o campo eletromagnético de radiofrequência utilizado nos telefones celulares com meio carcinogênico.

O aparelho emite um sinal de ondas de radiofrequência, que são invisíveis. Teoricamente, os seus únicos efeitos sobre o tecido vivo é o aumento de temperatura, mas como penetram no corpo, podem provocar mudanças no funcionamento das células (7).

Aproximadamente 30 estudos epidemiológicos tentaram avaliar a associação entre uso de telefone celular e risco de tumores cerebrais. Alguns dados lançados referem-se a tecnologia analógica a qual não é mais utilizada. Alguns destes financiados por potências dos setores de telecomunicações.  Outros com metodologias extremamente questionáveis. Também houve estudos experimentais envolvendo culturas de células e modelos animais. Isso seria aplicável a nós seres humanos? O sinal 3G poderia estar associado ao câncer cerebral? A nova tecnologia 4G? As tecnologias que estão por vir nas telecomunicações? Será que após 10 anos de uso de telefones celulares, 30 minutos por dia, aumentamos o risco de tumor cerebral como proposto por alguns autores? (8)

A dificuldade de um desenho de estudo adequado torna essas pesquisas muito heterogêneas, fomentando controvérsias e gerando conclusões variadas. A evidência atualmente é insuficiente nesta associação. Não há uma resposta definitiva, nem um mecanismo biológico sólido a ser oferecido como resposta à população. Neste contexto nebuloso, cabe algumas dicas para minimizar a exposição a radiofrequência tão empregadas em nosso mundo digital (4,7,8):

  • Minimizar exposição, realizando ligações de até 6 minutos e não mais que 30 minutos diários;
  • Desencorajar as crianças de fazer chamadas não essenciais, bem como, também manter suas chamadas curtas;
  • – Usar fones de ouvido ou viva-voz, que impedem o contato direto com o celular;
  • – Alternar as orelhas ao atender/efetuar ligações;
  • – Lembre-se que os telefones sem fio têm a mesma radiação do celular;
  • – Não use o celular como despertador, mantenha-o a pelo menos 2 metros da cabeceira;
  • – Em casa utilize telefone fixo, que usa baixas frequências.

 

 

 

Referências

1-Chapman S, Azizi L, Luo Q, Sitas F. Has the incidence of brain cancer risen in Australia since the introduction of mobile phones 29 years ago? Cancer Epidemiol. 2016 Jun;42:199-205. doi: 10.1016/j.canep.2016.04.010.

 

2-Sato YKiyohara KKojimahara NYamaguchi N.Time trend in incidence of malignant neoplasms of the central nervous system in relation to mobile phone use among young people in Japan. Bioelectromagnetics. 2016 Jul;37(5):282-9. doi: 10.1002/bem.21982. Epub 2016 May 19.

 

3-Gong XWu JMao YZhou L. Long-term use of  mobile phone and its association with glioma: a systematic review and meta-analysis. Occup Environ Med. 2007 Sep;64(9):626-32.

 

4-Morgan LL, Miller ABSasco ADavis DL . Mobile phone radiation causes brain tumors and should be classified as a probable human carcinogen (2A) (review). Int J Oncol. 2015 May;46(5):1865-71. doi: 10.3892/ijo.2015.2908. Epub 2015 Feb 25.

 

5-Grell KFrederiksen KSchüz JCardis EArmstrong BSiemiatycki JKrewski DRMcBride MLJohansen CAuvinen AHours MBlettner MSadetzki SLagorio SYamaguchi NWoodward ATynes TFeychting MFleming SJSwerdlow AJAndersen PK. The Intracranial Distribution of Gliomas in Relation to Exposure From mobile phone: Analyses From the INTERPHONE Study. Am J Epidemiol. 2016 Dec 1;184(11):818-828. Epub 2016 Nov 3.

 

6-de Vocht F. Inferring the 1985-2014 impact of mobile phone use on selected brain cancer subtypes using Bayesian structural time series and synthetic controls. Environ Int. 2016 Dec;97:100-107. doi: 10.1016/j.envint.2016.10.019. Epub 2016 Nov 9.

 

7-Szmigielski S.Cancer risks related to low-level RF/MW exposures, including cell phones. Electromagn Biol Med. 2013 Sep;32(3):273-80. doi: 10.3109/15368378.2012.701192. Epub 2013 Jan 15.

 

8-Alexiou GASioka C. Mobile phone use and risk for intracranial tumors. J Negat Results Biomed. 2015 Dec 23;14:23. doi: 10.1186/s12952-015-0043-7.